Após sucessos diplomáticos de Israel, palestinos fecham acordo para realizar 1ª eleição em 15 anos

Após 15 anos divididos, as principais forças políticas palestinas, Hamas e Fatah, selaram acordo para realizar novas eleições na Palestina. Que acordo foi esse e quais as perspectivas para a questão Palestina?

Sputinik Brasil | Ana Lívia Esteves – No dia 24 de setembro, os principais partidos políticos palestinos, liderados pela Fatah e o Hamas, chegaram a um acordo para a realização das primeiras eleições na Palestina em quase 15 anos.

Após longas negociações na cidade turca de Istanbul, as lideranças palestinas se comprometeram a realizar eleições legislativas daqui a seis meses.

Como resultado do acordo, “foi constituída uma comissão que está encarregada de preparar as eleições e estabelecer o calendário eleitoral”, disse o presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), Ualid Rabah, à Sputnik Brasil.

“Ficou definido que primeiro serão realizadas as eleições legislativas”, explicou Rabah. “Em seguida, haverá eleições presidenciais e para o Conselho Nacional Palestino.”

“O Conselho é a máxima instituição palestina em todo o mundo, que reúne inclusive deputados da diáspora”, relatou Rabah.

“Também foi constituída uma comissão encarregada de unificar a luta popular, criando uma liderança nacional palestina unificada”, informou o presidente da FEPAL.

As últimas eleições legislativas realizadas na Palestina ocorreram em 2006, quando o grupo islâmico Hamas obteve uma vitória inesperada e significativa.
Divisão

Após a divulgação dos resultados eleitorais de 2006, Hamas e Fatah formaram um governo de unidade nacional que durou pouco tempo. O não reconhecimento internacional da vitória do Hamas e divisões internas prejudicaram a manutenção da unidade.

Desde então, a Palestina passou a ter dois governos paralelos: um na faixa de Gaza, liderado pelo Hamas, e outro na cidade de Ramallah, na Cisjordânia ocupada, liderado pelo Fatah.

“Atualmente, 25 partidos políticos atuam na Palestina, mas a Fatah e o Hamas se destacam por liderar governos, ou melhor, semigovernos sob ocupação do inimigo”, disse.

Para Rabah, é essencial que a Palestina consolide a união nacional para poder resistir à ocupação estrangeira de seu território.

De acordo com Beaklini, a divisão das forças políticas palestinas pode ser “perfeita do ponto de vista maquiavélico, mas é terrível do ponto de vista humano”.

“Além de estar ocupada e cercada por Israel e parcialmente […] abandonada por países árabes, a Palestina ainda tem uma divisão de lideranças que só favorece ao poder ocupante”, disse Beaklini.

“Nesse sentido, é da ordem da política que o povo palestino não pode se dar ao luxo de ser bicéfalo e não ter uma alternativa unificada”, acredita o cientista político.

Eleições sob ocupação

O acordo para a realização das eleições prevê a realização do pleito em Jerusalém e na região sitiada da Faixa de Gaza. Em função da ocupação israelense, garantir a organização das eleições nessas localidades pode ser um grande desafio.

“A Palestina não tem poder eleitoral constituído, afinal está sob ocupação”, disse Beaklini. “O mais sensato para garantir o resultado eleitoral é um acordo entre as lideranças palestinas para que as sessões eleitorais sejam transparentes, tanto no escrutínio quanto na fiscalização.”

Mesmo assim, dificilmente a contagem de votos poderá ocorrer em um único local, uma vez que “trânsito entre Gaza e Cisjordânia está bloqueado por Israel”.

Por isso, Rabah acredita que a comunidade internacional deve agir para garantir que a Palestina possa organizar suas eleições.

“É muito importante a atuação de Rússia, China, França, Inglaterra e da ONU, para garantir que as eleições palestinas se realizem de forma transparente, sem os efeitos deletérios da ocupação em Jerusalém, em Gaza e na Cisjordânia”, disse Rabah.

Beaklini lembra, no entanto, que o sucesso do processo eleitoral palestino também depende “do respeito mútuo e acordo entre as cinco maiores forças políticas [locais]”.

“Ter um processo legítimo, democrático, pluripartidário é muito importante aos olhos do mundo e aos olhos dos próprios palestinos, para mostrar que existem condições para o autogoverno”, disse o cientista político.

Ofensiva diplomática israelense

O acordo histórico veio pouco depois da consolidação da bem-sucedida ofensiva diplomática israelense para normalizar suas relações diplomáticas com países do mundo árabe.

Em 15 de setembro, um acordo entre Israel, EAU e Bahrein foi assinado na Casa Branca. Nesta quinta-feira (1º), Líbano e Israel, países formalmente em guerra, anunciaram o início de negociações para delimitação de fronteira marítima.

Segundo Beaklini, os acordos de normalização podem ter “acelerado os tempos da diplomacia no mundo árabe”, favorecendo o acordo entre Hamas e Fatah.

Para o presidente da FEPAL, esses acordos de Israel com países árabes representam um “perigo existencial” e agravaram a posição internacional da Palestina, tornando “necessária a coordenação entre todas as forças”.

A diplomacia israelense defende que os acordos de normalização das relações diplomáticas podem trazer ganhos econômicos a toda a região, favorecendo, portanto, a paz no Oriente Médio.

No entanto, Rabah acredita que “só haverá paz no Oriente Médio quando houver paz na Palestina”.

“E só haverá paz na Palestina quando os direitos nacionais humanitários e civis dos palestinos forem respeitados e houver um Estado palestino, à luz do direito internacional. Esse é o real caminho da normalização”, concluiu Rabah.

No dia 24 de setembro, as principais lideranças palestinas, reunidas na cidade turca de Istambul, assinaram acordo para a realização de eleições legislativas, presidenciais e para o Conselho Nacional Palestino. As eleições, que estão previstas para ocorrerem em seis meses, serão as primeiras realizadas na Palestina em quase 15 anos.

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