Vale do Bekaa reinventa vinho libanês e exporta ao Brasil

A região libanesa é estampada em rótulos de diferentes importadoras no Brasil. Foi no Vale do Bekaa que a produção voltou a ganhar força no Líbano, que tem história milenar com a bebida, mas passou anos distante do vinho.

Thais Souza | Agência ANBA

A história da produção de vinhos no Líbano é milenar. Apesar disso, os hiatos pelos quais o país passou tornaram a região pouco conhecida para boa parte dos amantes de vinhos. O país foi marcado pela paralização da produção de vinho durante o Império Otomano e a durante a guerra civil que abateu a nação entre as décadas de 1970 e 1990. Na foto acima, plantação de uvas no Vale do Bekaa, no Líbano.

Foi a partir dos anos 90 que a retomada da produção na região do Vale do Bekaa começou a mudar esse roteiro. Segundo a importadora brasileira Zahil, fundada por irmãos de ascendência libanesa, a partir daí a produção do país árabe voltou a crescer e o número de vinícolas passou de cinco para mais de quarenta, até 2010.

Nem Velho, nem Novo Mundo

No universo dos vinhos, muito se fala sobre produções de países do Velho Mundo e do Novo Mundo. No caso do vinho libanês a história é outra. “Os vinhos do Líbano, pela região, deveriam se enquadrar como vinhos do ‘Velho Mundo’. Mas como teve esse longo período sem produção, não são. Mas também não se encaixam em vinhos do Novo Mundo. É um caso à parte”, explicou à ANBA Rodrigo Mainardi, gerente de Marketing da Mistral.

O fornecedor da importadora é a Château Musar, da família de produtores Hochar. À época da guerra civil, Serge Hochar, à frente da vinícola, foi um dos únicos produtores a manter a colheita. “A questão é que na época da guerra, era muito perigoso trabalhar e para exportar era preciso uma logística absurda. E eles conseguiram produzir em tempo conturbado”, ressaltou Mainardi.

Para além da história do país, o executivo lembra que o produto se destaca pelas condições naturais da região, ideal para a produção das uvas. “Ali, no Vale do Bekaa, é muito propício. Tem uma altitude, mas é uma região plana. O clima e o solo também permitem uma maturação mais lenta”, destacou o gerente.

Da mesma região vêm os vinhos comercializados no Brasil pela Zahil. A marca representa com exclusividade os vinhos do Château Kefraya, o segundo maior produtor de vinhos do Líbano. “Os vinhos libaneses possuem grande proximidade com regiões como Bordeaux e Rhône, já que tiveram grande influência francesa no período em estiveram sob seu domínio. Seus vinhos que ficam entre o estilo do Novo Mundo – intensos e com fruta madura – e do Velho Mundo – elegantes e com potencial de guarda”, afirmou a importadora, em nota.

A Zahil atua há 35 anos e faz compra e distribuição de todos os produtos, sem intermediários. “Trabalhamos somente em regime de exclusividade de representação no Brasil dos vinhos que importamos”, disseram os porta-vozes da marca.

Outra marca brasileira que vende vinhos libaneses é a doceria Alyah Sweets. A loja paulista produz e vende iguarias árabes preparadas por chefs libaneses que vivem agora em solo brasileiro, além de bebidas árabes. “Temos três tipos de vinho tinto, dois tipos rosé e dois brancos. São rótulos com características bem definidas, próprias da região. Um dos vinhos brancos, tem uma uva única da região, típica do Líbano. A uva Obeidy, a mesma utilizada para elaborar o tradicional Arak”, revelou o porta voz da marca, em nota.

A empresa abastece seus vinhos libaneses de perfil encorpado também do Vale do Bekaa. No caso da Alyah, no entanto, a compra acontece através de importadoras já estabelecidas no Brasil e não diretamente dos produtores como no caso da Zahil e da Mistral.

Direto do produtor

Logo quando começou a importar, um dos primeiros contatos da Mistral foi com a família produtora do Château Musar. “Depois que começou, o mercado evoluiu muito rápido. Nessa época, o Ciro Lilla, dono da Mistral, começou a procurar grandes nomes do vinho. E ele foi atrás do Château Musar. Esse vinho ia além do Líbano. Era muito mais conhecido do que o próprio nome do país [no setor]. Com o passar dos anos apareceram muito mais produtores bons”, afirmou Mainardi.

Para exportar, ele conta que a vinícola libanesa mantém um escritório na Europa. “Além deles, outra marca libanesa que fez contato comigo contou que tem escritório fora para facilitar a exportação. Provavelmente eles fazem isso para se prevenir de dificuldades, algo que aprenderam até com a vivência da guerra civil”, ponderou.

No Brasil, há outro fator que atrai o público para os vinhos do Líbano. “Temos relacionamento com essa vinícola há mais de 20 anos. E eles têm interesse extra no Brasil por causa da grande colônia libanesa que existe aqui.”, relatou ele sobre a ligação afetiva que também impulsiona o consumo.

Além dos descendentes, a crítica inglesa também é fã dos rótulos da Château Musar, explica Mainardi. Entre os motivos, está seu processo de vinificação. “E o proprietário fez esse vinho inspirado dos Châteaus de Bordeaux de antigamente. Ele esteve nessa região francesa e foi bastante influenciado por lá, por isso o vinho dele é feito em um estilo super tradicional, um vinho para envelhecer. Eles podem ser comprados por 30 a 40 anos”, contou.

A Mistral tem vinhos tinto e branco da marca, além de uma linha mais recente, a Jeune. Os rótulos levam justamente o nome jeune, jovem em francês, porque tem uma proposta diferente dos outros rótulos da marca. “A linha é justamente para a pessoa que quer comprar um vinho que vai envelhecer ainda por anos, mas enquanto espera quer provar os vinhos da linha Jeune. Isso ajuda a abrir mercado porque hoje em dia as pessoas estão acostumadas a consumir o vinho de imediato”, concluiu.

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